Li

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segunda-feira, 20 de julho de 2009

TERRAS DESCONHECIDAS

Isso não é um conto, é um sonho. E sonhos são feitos de açúcar. Mas eu quero o fel, quero o que me é proibido. Mesmo que me seja negado. E assim posso sentir ao acordar o gosto de leite talhado, azedo, amargo entre minha saliva e meus dentes.

Sei que terei que despir-me de mim mesma e criar uma mulher. Uma mulher que precisará morrer no final dessa história. Por que estou contando o final? Também não sei. Talvez, porque minha natureza seja desobedecer. Talvez, porque sei que você não gosta de saber o final antes que seja o final. Porém, como isso não é um conto, revelei-te o recheio desse sonho com muito fel e mel.

Luana nasceu condenada a desobedecer. É seu instinto. Quanto mais desobedecia, mais queria desobedecer. Não sei explicar o que a movia fazer justamente o que não queria. E melhor, a fazer justamente o que as pessoas não esperariam dela.

Ela é meu oposto. Por isso estou inventando-a. Nela há um quê de verdade. Nela há um quê de pureza temperado levemente com um quê de sensualidade. Essa pureza provoca-lhe medo, ao mesmo tempo que a sensualidade provoca-lhe coragem. Medo de tocar no que lhe é proibido. Medo de ter o que não lhe pertence. Mas existe alguém que pertença a alguém? Enfim, o medo lhe protege de pisar em terras desconhecidas. Já a sensualidade que percorre suas veias com suavidade, impulsionando-lhe a uma coragem quase que inata. Uma vontade de continuar, de enfrentar as feras e domá-las com carne e vinho.

Essa coragem é que lhe fez participar desse sonho. Um sonho em que ela desconhece o personagem principal. Um sonho que é sonhado por outra pessoa: o desconhecido, o narrador ou a narradora?

Só pode ser a obediência. Eu não me importo de ser a coadjuvante dessa história. O importante é sonhar, mesmo que esse sonho não me pertença. Mesmo que esse sonho seja parcialmente meu.

Por isso eu resolvi participar dele também e tentar salvá-los. Para isso terei que mudar o curso desse sonho. Mexer no que está oculto. Tocar nas palavras não ditas. Alterar os destinos já que eles ainda não foram traçados. Pelo menos não lhe foram narrados. E como conheço o fim, antecipo-me dando ao anfitrião - o herói dessa história, sua carta de alforria, um final de paz. Um final em que fique livre da intrusa. Da mulher que atormenta seus sonhos.

Não será nada fácil, porque ambos rejeitarão esta história. Ela porque não deseja morrer. Como todas quer ser única, imortal, eterna, inclusive nos sonhos. E morrer é ceder espaço para o outro. E isso é autoflagelo.

E ele, porque não está preparado para perder o que deseja. Perder provoca-lhe dor e ele é o mocinho dessa história. E mocinhos são anestesiados. Mocinhos são vencedores. Eles permanecem até o fim, mesmo que pra isso precise virar lenda. Mocinhos sempre continuam...

Por isso quero que eles troquem de papel. Quero que eles se confundam e se fundam num só personagem. O melhor e o pior de cada um intrinsecamente num só ser. Será possível? Não sei. Você é um ou dois? Eu sou dois, três e às vezes quatro. Tudo depende do ângulo.

Não saber das coisas é minha salvação. Não saber é dar a oportunidade ao galã desse sonho pensar e mudar ambas as histórias.

Mas onde estão as histórias? Talvez esse sonho não tenha história. O que sei sobre o herói é que ele gosta de literatura. De ler o que é escrito milagrosamente.

Eu não. Eu venho aqui para mostrar que escrever é necessário. Que escrever é uma faca de dois gumes. Que escrever é traçar o seu próprio destino e transgredir a história já escrita. É mexer no que se pensa ser segredo.

É preciso começar, mas eu tenho certo medo que Luana comece a falar. Ela é desajeitada. Tem uma ingenuidade profana. Luana me assusta. E não assusta somente a mim. Ela assusta o herói dessa história também. Ele tem medo do que ela fala. Ela é impulsiva demais. Fala o que não deve e sempre na hora errada. Ela e ele não me conhecem, portanto não sabem ainda distinguir a pessoa da personagem. Por isso, prefiro me esconder, me omitir.

Esse personagem será um personagem monossilábico. Só ela falará de si. Ele apenas concordará porque não sabe negar o que se pede em silêncio e ao pé-do-ouvido.

Apesar de tão diferentes, são muito iguais e isso me assusta. Assusta tanto, que fico mudamente olhando-os. Ele a olha como se fosse uma fruta madura. E ela não o olha. Apenas senti! Senti que há fogo consumidor e por isso teme seu olhar.

Ao seu lado, ela se distrai fingindo ler livros já lidos. E para camuflar o medo, lê alguns trechos do livro em voz alta para que torne verossímil a leitura. Assim, pensando que ele está atrapalhando-a, conversa com um e com outro e com os botões da camisa. Mas, apesar de aparentar distraída, quando percebe que está perdendo-o de vista, propõe um diálogo em que não precise olhar em seus olhos, e de canto de olho, ela o observa. E assim conversam por longo tempo.

Quanto tempo isso dura? Tempo necessário para se descobrirem. Talvez eles terminem essa história sem se olharem nos olhos.

Apesar de gostar do inacabado, do que está para acontecer. Ela admite desejar aquele homem desconhecido que a convidou para frequentar seus sonhos. Mas para descobrir os seus mistérios, precisará penetrar seu olhar no dele. Por isso acho que não demorará muito para Luana render-se aos seus encantos.

Não foi isso que planejei. O plano era matar a protagonista, mas como fazer isso se agora não sou mais eu que a domina? Ela agora anda com suas próprias pernas. Como matar uma mulher quase muda e quase apaixonada? Reina o silêncio dos inocentes.

E ele? Ele tem um orgulho santo que provoca inveja nos que o rodeiam. Tem cheiro de açúcar mascavo com canela. Suas poucas palavras são cantadas em ré menor. A música entra pelos seus poros e sai pelos seus dedos. Já Luana é feita de fruto e folha. Seu cheiro é de maracujá e seu gosto é de hortelã recém ceifada. A poesia entranha em seus ouvidos e transpassa sua pele.

Ambos se deixam levar pelos sentidos e assim seus olhares invadem suas almas. Uma invasão quase permissiva. Querem se enxergar e como num caleidoscópio vêm suas imagens e desejos refletidos um no outro.

Aos poucos vão se entregando. Palavras, olhares, vinho, mãos, saliva ... calmamente encontram-se entre sussurros e gemidos.

Lilian Flôres