Li

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segunda-feira, 20 de julho de 2009

TERRA LAVRADA

Maria era mulher de todos os dias. Era feita de braços, pernas e peitos. Os braços acolhiam todos que precisassem de um ombro amigo, uma ajuda ou até mesmo um cortês cumprimento. Não era mulher tímida, pelo contrário, sempre estava à frente de tudo e de todos. Às vezes até sem permissão. As pernas e os peitos eram seu segredo maior. Não os mostrava para ninguém. Sempre de saias compridas ou longos vestidos que escondiam desde seu tornozelo carnudo até seu pescoço.

Um dia foi ao médico e descobriu que estava quase surda. Sofria de surdez passageira. Logo ela que apesar das vestimentas discretas era feita em pura alegria. Teria agora que aprender a conviver com o silêncio de seus risos. Além dos seus, não ouvia os alheios também.
 Estava aprendendo amar o silêncio. Não era tarefa difícil, mas também não era fácil. Digamos que poderia ser possível. Como é possível se aprender a escrever.

Eu queria escrever o silêncio, mas ele me é proibido. Tem gente que acha que o sussurro é silêncio. Eu acho que o grito é o silêncio. Eu sou escandalosamente silenciosa - toda feita em gritos! Agora mesmo é que eu queria gritar: SILÊNCIO! Mas se eu gritar será sussurro, porque o grito está abafado dentro de mim. E quanto mais grito: SILÊNCIO! Mais sussurro emana de meus lábios.

Maria não, Maria é puro grito. Um grito que ecoa em terras lavradas de estrume e milho.
Tenho dois palpites sobre o silêncio: um ele é vermelho-puro-sangue e outro verde-água-esmeralda, ambos pulsam dentro de mim. Mas qual dos dois será que ela escolheria? Não sei. Só sei que se soubesse mentiria. Porque a verdade dói demais e ela gosta da mentira nua e crua.
Maria com certeza é vermelho-puro-sangue. Ela é concreta. Ela é o meu disfarce. Ela existe para que eu possa dormir tranquila, sem incomodar a vizinhança.

Queria mesmo era pegar o silêncio, mas ele novamente escapou. Há silêncio sacrossanto dentro de mim. Há silêncio morno, pronto para ser vomitado.

Lilian Flôres