sexta-feira, 7 de março de 2014
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
200 dias letivos?
2 + 2 é igual a 4? Para uma criança pode ser 22. Há quem diga que 2+2 é 5. Seria a matemática totalmente exata? Ou tudo depende do ponto de vista que olhamos? E 1 ponto de vista é visto de apenas 1 ponto. O certo seria ver todos os pontos. Mas a grande questão é: quantos pontos? I-N-F-I-N-I-T-U-D-E!!!!!!
Gente, estou falando de um assunto que não domino e nunca dominei. Matemática e seus números são pra mim um E.t. de Varginha. Mas confesso que admiro aquelas pessoas que calculam com os olhos. Lembro com profundo carinho do professor HÉLIO de matemática da 7ª série, lá do Claurinice ou CVC para os íntimos, que dizia que hipotenusa rimava com o rabo da tartaruga. Como desde aquela época eu já tinha uma queda por poesia, achava aquilo lindo. Eu ficava extasiada e desesperada ao mesmo tempo, com um problema cheio de x e y, onde a resposta tomava conta do quadro todinho. Em matemática eu só era íntima mesmo do número 7, porque essa era minha nota no boletim até o 3º bimestre. Sim, porque no 4ºbimestre, batia aquele espírito natalino e o professor por piedade, me dava 8.
Porém, todavia, entretanto... eu e todos aqueles os professores que pediram para que eu escrevesse uma crônica sobre o 200 dias letivos; gostaríamos de entender a matemática desse cálculo. Pois, todo o ano é a mesma polêmica: "por que vamos parar amanhã, se o Estado parou ontem?" Daí alguém sempre diz: "ontem não, antes de ontem". E a culpa toda é sempre do Ministério Público que se souber que pararam ontem e não hoje... ai, ai, ai!!!
Vamos arregaçar as mangas e calcular nossa jornada letiva. Segundo a física passada, o dia tem 24h, mas segundo pesquisadores pós-modernos, o dia tem apenas 16h. Vixe! Então teríamos que trabalhar mais ainda? Estaríamos devendo? Vocês matemáticos de plantão que calculem o quanto. Ou melhor, esqueçam esse detalhe, afinal já está estabelecido como 24h o dia. Deixamos as sensações para a metafísica.
Há também um cálculo histórico-geográfico, ou seja, temos 200 dias letivos e uma jornada de 800 horas e estamos em uma das piores colocações, penúltimo lugar (39º) em qualidade de educação. A Finlândia que está em 1º lugar no ranking mundial, tem 188 dias letivos e carga horária de 1200 horas aproximadamente. Pois lá, as aulas começam apenas às 8.30h ou 9h e terminam às 15h, ou seja 7h de aula por dia -, o chamado período integral. Uma realidade um tanto utópica, visto a quantidade de escolas que temos para a quantidade de alunos. Precisaria no mínimo do dobro de escolas ou a metade de alunos. Mas como já dizia a Mocidade Independente de Padre Miguel " sonhar não custa nada, quando o sonho é tão real..." Olhando por esse ponto, estamos quites? Ou como diz a minha mãe: "elas por elas!"
Enfim, essa crônica não tem a intensão de achar culpados, mas de juntos buscarmos refletir sobre alternativas possíveis de ofertar um ensino de qualidade para os alunos e uma jornada de trabalho justa para nós professores, onde não teríamos que fazer "hora-extra" ficando após o horário para entregar boletins; reuniões de conselho de classe; entre outras paradas não contabilizadas monetariamente.
Tenho saudades do tempo em que parávamos um dia para entregar os boletins e ao mesmo tempo conversávamos com os pais. Saudades do tempo em os "bons" alunos não pagavam a conta dos "maus", ou seja, aqueles que estudaram o ano inteiro e conseguiram passar direto em todas as 9 disciplinas heroicamente, eram contemplados com umas férias mais longa e merecida. Enquanto os demais, ficavam mais 20 dias estudando, tendo aula de "reforço", para então, fazerem o Exame Final. Sinto profunda saudade da maratona de cursos que tínhamos na Univille, no Centro Eventos, entre outros espaços.
Vamos ver o que nos espera nesse ano de COPA DO MUNDO, do país do futebol, do carnaval e das novelas; quiçá dos livros. "Sonhar não custa nada..."
Lilian Flores
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
O
TEATRO MÁGICO COMEÇOU: CONSELHO DE CLASSE!!!!!!!
Antes
de começarem a atirar as pedras em mim, confesso que não sou a
melhor professora, muito menos a funcionária padrão ou professora
destaque do mês! Também está longe da minha vontade adquirir
quaisquer desses “títulos”. Até porque, o que é ser padrão? O
que é ser melhor? Para muitos, bajular chefias, dizer sempre sim;
concordar na frente e discordar por trás; dizer amém sem rezar o
pai nosso!
E
assim as máscaras vão se estabelecendo e de simples máscaras
tornam-se personagens reais. E aí já viu, no Grande Conselho de
Classe aparecem inúmeras personas;
desde
Madre Tereza de Calcutá até Freddy Krueger.
Mas
a grande questão não são os personagens que cada um se apropria na
hora H, mas os olhares de fuzilamento; as caras e bocas e
o “Soberano
Conselho”
ou Conselho Soberano” como preferir; sentenciando aprovações e
reprovações com as justificativas que vão desde “cuidado! A mãe
é barraqueira!” até “tadinho, ele é bonzinho”.
Enfim,
inicia-se a tragicomédia! Luz, câmera e ação.
Eu
sou contra a reprovação, mas também sou contra a aprovação
automática. Principalmente a aprovação automática que nem pra
exame o indivíduo vai. Pasmem!
O
pior é você descobrir que tem amigos de trabalho que passam os
alunos sem exame para não ter que fazer prova contemplando os
assuntos ministrados durante o ano letivo ou porque estão cansados e
não querem perder tempo corrigindo provas de alunos que dizem eles
que serão aprovados. E provavelmente serão mesmo. Não duvido! Se
continuarmos com essa postura despreocupada.
Afinal,
enquanto somente 3 a 5 professores deixam alunos em exames, outros
para justificar sua preguiça pedagógica, usam como muleta a
desculpa que serão aprovados indo ou não para exame. Claro
que tem alunos que não ficam em exame em disciplina nenhuma. Mas
temos o outro extremo, que são alunos “problema” como os
analfabetos que estão no
ginásio; os faltosos; os que
apresentam dificuldades de aprendizagem; os preguiçosos,
indisciplinados, entre outros rótulos.
Alunos
esses, que na minha humilde opinião, deveriam ficar de 5 a 9
disciplinas pelo menos. Para que no mínimo, ele e a família repensem sobre seu
comportamento, sua falta de interesse, seu
descompromisso e omissão.
Sou
novata no
magistério, tenho apenas 10 anos de experiência profissional, como
professora de Língua Portuguesa. Portanto,
posso dizer que sou uma
pré-adolescente nessa profissão tão desgastante e tão
gratificante ao mesmo tempo. Talvez
um dia eu me arrependa do que estou escrevendo agora. Mas caros
colegas, eu precisava...Não! Eu preciso por no papel minhas
angústias.
Angústias
essas, que não são apenas minhas, mas
de amigas(os) de trabalho que
estão nesse mesmo barco: com inúmeras provas de recuperação
paralela para corrigir e elaborando as provas para os exames finais.
E todos preocupados com os alunos e não com seus umbigos.
Pois
acreditem, tem professores
indignados porque alguns alunos
foram com notas muito baixas nos primeiros bimestres e por isso
querem mudar a nota para que o aluno seja aprovado automaticamente,
sem nem passar por exame.
O
pior é que não é a direção ou supervisão e orientação
escolar solicitando tal absurdo. São professores! Pasmem pela
segunda vez!
E
muitos desses professores são os primeiros a pegar o microfone nos
cines teatros da vida para falar de aprovação automática por parte
do sistema educacional,
completamente indignados.
Tem
professor que o espelho dele é nota 8 para todos, sem discriminação.
Parece até piada. Os próprios alunos se questionam e comentam nos
corredores e salas de aula
“Vê professora, eu fiz tudo ganhei 8 e o fulano que não fez nada, nem vem mais para a escola e
também ganhou 8, dá para entender? Que
doideira, todo mundo da sala ganhou 8”.
Claro
que nessa hora você faz cara de paisagem porque é anti ético
defendê-lo nesse momento, na qual você está a par da situação
completamente errônea, porém
também é antiético
denegri-lo. Mas eu fiquei pensando com os meus botões, dando aquele
sorriso amarelo... Mal sabe ele
que 8 foi a nota dada para todos os alunos da escola! Pasmem pela
terceira vez!. Isso é mágico!
Tudo
bem que o aluno vá passar depois, porque no fim das contas
conseguiram um laudo ou porque as madres Tereza's de Calcuta's
entraram em ação. Mas pelo menos ele foi para exame, fez prova com
várias disciplinas e não apenas com 2 ou 3.
É
tragicômico! Só quem está presente consegue entender a
complexidade que é avaliar um indivíduo. Não dá para ser 100%
racional e nem 100% emocional é 50% de cada, e encontrar esse
equilíbrio na hora do pega-pa-capa, não é tarefa fácil.
É
colocar na balança as habilidades cognitivas, linguísticas, motoras
entre outros pesos e medidas.
Nesse
momento, você enquanto professor se coloca no lugar do aluno, do pai e
da mãe e querendo ou não, acaba lembrando do seu tempo escolar. Do
quanto você era estudioso ou não; do quanto você era bagunceiro ou
não; do quanto você era rebelde ou não... e com profunda tristeza
você lembra dos seus amigos que pararam de estudar e se perderam no
caminho das drogas; mas com
alegria você também lembra daqueles que mesmo parando de estudar
encontraram uma profissão e estão vivendo dignamente e as vezes
melhor que você, no seu próprio negócio, feliz
e sem estudo acadêmico.
Porque a
escola é uma faca de dois gumes e ser professor é tentar pelo menos
saber usar a faca, afim de
separar
juntas de medulas e chegar
no coração para
dilacerá-lo, tentando achar nele terra fértil.
Lilian
Flores
domingo, 20 de outubro de 2013
GENTE SANTA OU SANTA GENTE?
Tem gente que não frequenta igreja
porque acha que é lugar de gente SANTA. Caro amigo(a), sinto
decepcioná-lo(a), mas IGREJA, é lugar de GENTE! Gente como a gente.
Que dorme, acorda, dorme de novo, come, fala, estuda, trabalha etc...
e por ser lugar de gente, como qualquer outro lugar, é cheio de
problemas. Aí já viu...você vai encontrar gente preguiçosa, gente
mentirosa, gente fofoqueira, gente adúltera, gente ciumenta, gente
elegante, gente brega, gente, gente, gente, gente... muita gente!
Gente pra todo gosto e pra todo o tamanho.
Mas como? Essa é a pergunta que não
quer calar!
Simples! A diferença é que a IGREJA,
não a construção em si, mas sim a igreja, lugar preenchido por
gente como a gente, é como um jogo de espelho, você vê no outro as
suas limitações, potencialidades, erros, acertos, medos, traumas...
enfim, seus fantasmas. E de repente, você percebe que fulano
conseguiu se livrar das drogas porque ele fez assim, assado e cozido.
Então, você se impressiona com a receita e vai tentar seguir levar
a risca as quantidades corretamente. Pode dar certo e geralmente dá,
porque a receita é JESUS + ORAÇÃO + PALAVRA DE DEUS(BÍBLIA) +
JEJUM + FÉ + SEU QUERER. Não é uma receita complicada, mas como
todas elas, exige tempo, dedicação e AMOR.
Mas a grande questão não é ter a
receita em mãos, é querer mudar, é tentar mudar, é não desistir
de querer tentar mudar! Ufa! Dá um cansaço, principalmente pra
aqueles que ficam tentando, e claro, para o PASTOR que ouve
"diumtudo" (palavra que acabei de ouvir) e no fritar dos
ovos assume postura de pai, irmão mais velho, tiozinho, psicólogo e
outros personagens.
RESUMO DA ÓPERA: Não existe igreja
perfeita e nem gente santa, porque não existe ser humano perfeito.
Podemos ser aperfeiçoados e santificados, ou seja, em busca da
perfeição e em busca da santidade, que para nós cristãos, cremos,
que está em CRISTO JESUS. Portanto, como Ele disse há mais de dois
mil anos atrás: “quem não tem pecado, que atire a primeira
pedra.”
Então, a solução é sair da igreja?
A solução então é: salvem-se quem puder? Ou, pior: ficar se
alfinetando por olhares de indiferença, disseminações de fofocas,
palavras soltas no face como se fossem roupas no varal?
Acho que nenhuma das alternativas,
apesar de estar nesse momento utilizando-me da terceira alternativa.
Não tenho respostas para tantas perguntas, mas creio no perdão
genuíno, na reconciliação, no amor ágape... porque a obra que o
Senhor nos confiou, não pode perecer. E A ÚNICA CERTEZA QUE TENHO é que devemos sempre estar nos olhando no espelho da nossa alma, onde reflete nosso caráter, afim de estarmos aperfeiçoando-o, mas tendo como ÚNICO modelo JESUS CRISTO.
Lilian Flores
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sábado, 15 de setembro de 2012
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
Vigília
Você é meu pecado maior! Pensar em ti é fazer vigília numa madrugada que não foi feita para o adeus!
Lilian Flôres
A Linha
Há linhas retas e tortas. Em determinados momentos é preciso ser linha reta. Já em outros, tortas. Sem querer eu escolho a torta. Elas me levam a rabiscos, vírgulas, aspas, pontos de interrogações... mas confesso que as linhas retas me fazem falta. Nelas teço riscos que vão seguindo em frente, sempre em frente, até chegar lá... Lá, onde não se pode ver, onde só se chega mergulhando, onde o sol já se pôs e o vento passa longe. Lá só se pode ouvir o pio dos pássaros. Lá, onde só eu e você podemos ir?!
Lilian Flôres
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Peixe
Eu queria te salvar, mas falta-me o anzol e tu és peixe grande demais para a minha ísca.
Lilian Flôres
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Vento
Vento que acordam os sinos, que entrelaçam sonhos, que sopram segredos, que gritam mistérios...
Lilian Flôres
Lilian Flôres
sábado, 11 de agosto de 2012
Alma Verde
Alma verde é o que tenho ou penso que tenho. Talvez ela seja branca e meu segredo é pintá-la de verde e assim, vou me disfarçando, como camaleoa que sou. Nesse momento penso que estou verde, porque estou sendo alguém que quase sou. Eu, abstrata extensão de mim mesma. Como uma lagarta que despreocupadamente vai se perdendo entre folhas e flores e ao se encontrar consigo mesma, pensa em voar... Depois do sol nascer, totalmente livre de seu casulo, bate asas de desespero em busca de néctar e vento.
Lilian Flôres
Lilian Flôres
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
Mentira
A mentira é um câncer que corrói o que há de mais genuíno e puro: o corpo sano -, que contamina a alma e juntos adoecem .
Lilian Flôres
Lilian Flôres
Declarações
Amo as palavras que transpiram pelos teus poros.
Lilian Flôres
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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Azul
Eu não poderia escrever esse texto se não estivesse utilizando tinta azul, porque outra cor seria traição e eu sou fiel. Fidelidade é azul como o mar e o latido do meu cachorro que grita: Saudades! Assim que me vê... Só que eu não o vejo e nem respondo seus lamentos. Apenas gosto de sentir os latidos ecoando em meus ouvidos, fazendo vibrar meus tímpanos, assim como os sinos vibram as vigas e as paredes da igreja matriz.É como se eu gostasse de vê-lo implorar por minha presença.
Outra coisa muito importante que é azul também: é a amizade. Ela nasce sem se pedir e só morre quando morremos. Assim como as flores do campo que nascem sem se plantar. E apesar de não darmos a devida importância, são elas que enfeitam as estradas, colorindo o mato verde e a poeira que há no meio do caminho.
Assim também é a amizade que colori os dias cinzentos e as noites secretas que tentamos esconder de nós mesmos. Quando pensamos que está bem escondido, percebemos com seu doce olhar, que descobriu-se o que estaria atrás do pensamento. Depois de desvendado o mistério, só resta mesmo traduzir em palavras, sorrisos, lágrimas o que o olhar não disse.
Ah! Lembrei... A felicidade também é azul. Mas eu tenho medo dela. Ela é silêncio acordado e sempre dorme na véspera. Ela tem um quê de felinidade, como os gatos: aparentam mansos e dóceis, mas quando o tocamos, tornam-se ágeis e vorazes. Temo o que não consigo sentir.
Lilian Flôres
Outra coisa muito importante que é azul também: é a amizade. Ela nasce sem se pedir e só morre quando morremos. Assim como as flores do campo que nascem sem se plantar. E apesar de não darmos a devida importância, são elas que enfeitam as estradas, colorindo o mato verde e a poeira que há no meio do caminho.
Assim também é a amizade que colori os dias cinzentos e as noites secretas que tentamos esconder de nós mesmos. Quando pensamos que está bem escondido, percebemos com seu doce olhar, que descobriu-se o que estaria atrás do pensamento. Depois de desvendado o mistério, só resta mesmo traduzir em palavras, sorrisos, lágrimas o que o olhar não disse.
Ah! Lembrei... A felicidade também é azul. Mas eu tenho medo dela. Ela é silêncio acordado e sempre dorme na véspera. Ela tem um quê de felinidade, como os gatos: aparentam mansos e dóceis, mas quando o tocamos, tornam-se ágeis e vorazes. Temo o que não consigo sentir.
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O Obscuro
Queria descrever o obscuro, mas ele se camufla de silêncio e quando tento pegá-lo, escapa por entre meus dedos; como a água do mar que deixa apenas seu cheiro de maresia entranhado em minhas veias. Por isso queria ver o silêncio se esvaindo em sangue. Assim quem sabe mataria minha vontade de entender o que não se vê.
No momento em que me olho de fora para dentro, vejo o nada. Fico noites a contar estrelas decaídas, tecendo pedidos que sempre chegam depois da hora marcada. De mãos vazias, olhos sonolentos e coração ensonharado, volto a alcova em que fui gerada. Fecho os olhos e me jogo em precipícios, ando a cavalo, grito, gemo, pulo e aterrizo numa madrugada que não foi feita para dormir. E como dama da noite permaneço muda e perfumada para o sol que surge à janela de meu quarto.
Lilian Flôres
No momento em que me olho de fora para dentro, vejo o nada. Fico noites a contar estrelas decaídas, tecendo pedidos que sempre chegam depois da hora marcada. De mãos vazias, olhos sonolentos e coração ensonharado, volto a alcova em que fui gerada. Fecho os olhos e me jogo em precipícios, ando a cavalo, grito, gemo, pulo e aterrizo numa madrugada que não foi feita para dormir. E como dama da noite permaneço muda e perfumada para o sol que surge à janela de meu quarto.
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quarta-feira, 19 de agosto de 2009
VEJO
Eu vejo o ar que se respira todo coberto de poeira.
Vejo a luz que brilha ao longe nesse inverno que não termina.
Vejo gotas de chuva que refrescam meus sonhos guardados em lugar secreto.
Vejo um amanhã que se inicia.
Vejo teus olhos que me vêm todos os dias, noites e madrugadas.
Vejo Tu que não dormes nunca.
Vejo a insônia que te consome a noite inteira.
Vejo o que não silencia:
O grito, o sussurro e a euforia.
Lilian Flôres
Vejo a luz que brilha ao longe nesse inverno que não termina.
Vejo gotas de chuva que refrescam meus sonhos guardados em lugar secreto.
Vejo um amanhã que se inicia.
Vejo teus olhos que me vêm todos os dias, noites e madrugadas.
Vejo Tu que não dormes nunca.
Vejo a insônia que te consome a noite inteira.
Vejo o que não silencia:
O grito, o sussurro e a euforia.
Lilian Flôres
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PECADO CAPITAL
Você é meu pecado mais que capital. Antes meu cardápio era doce sonho. Agora, amargo pecado, tão rubro quanto o sangue do cordeiro.
Lilian Flôres
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terça-feira, 18 de agosto de 2009
CONCRETO
Queria dizer sim, mas sim é talvez e talvez é o aborto e o aborto é a precoce resposta e a precoce resposta é não. Um não que deseja ser sim. Mas o sim é concreto demais, que de tão perto, dentro vive sempre!
Lilian Flôres
Lilian Flôres
AMOR
Amor, Amor, Amor, Amor???? Amar o que não se vê? O abstrato? O invisível que se faz visível? Amor que começa e não se finda, perpetua-se. Como o doce cheiro das águas do mar. Amor que continua, continua, continua, até... até não sei quando. Talvez até onde inicia o não e termina o sim. Assim como a chuva molha o mar.
Amor que mora longe e perto vive. O concreto sentimento que se abstrai pela ausência de não ter. Se auto-possui do nada, na esperança de ser possuído pelo tudo. Se flagela pela dor de perder o que nunca se teve.
Amor que grita silêncio para sufocar a saudade. Amor cozido pelo frio da madrugada que choca o ovo recém nascido. Ovo que descasca vida!
Lilian Flôres
Amor que mora longe e perto vive. O concreto sentimento que se abstrai pela ausência de não ter. Se auto-possui do nada, na esperança de ser possuído pelo tudo. Se flagela pela dor de perder o que nunca se teve.
Amor que grita silêncio para sufocar a saudade. Amor cozido pelo frio da madrugada que choca o ovo recém nascido. Ovo que descasca vida!
Lilian Flôres
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Lilian Flores
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
CENA
Queria tanto ser ouvida. Queria tanto enxugar meus prantos. Queria tanto dizer adeus. Queria tanto apagar a indiferença. Queria tanto invadir o palco e roubar a cena. Eu queria...mas não posso. Este monólogo é da protagonista.
Lilian Flôres
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CANTANDO AMOR
Hoje estou feita em relâmpagos. Ora acordo. Ora adoeço. Queria rasgar meu peito, gritar socorro e pedir esmola. Mas nada adiantaria. Imploro silêncio aos pássaros e desmarco as páginas dos livros não lidos. De repente estou cantando amor e nada mais dorme, nem o silêncio.
Lilian Flôres
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sábado, 1 de agosto de 2009
sexta-feira, 31 de julho de 2009
ONDA
Onda que me leva ao silêncio das águas do mar, para depois me fazer repousar em areias brancas.
Lilian Flôres
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terça-feira, 28 de julho de 2009
FOLHA
A folha é a ilusão da borboleta, quando lhe revelam o sonho, ela cria asas e se conclui a sempre necessária metamorfose.
Lilian Flores
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VENTO
O vento já soprou e não trouxe resposta, trouxe a semente, que ao germinar, revelará o segredo em dó maior.
Lilian Flôres
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sexta-feira, 24 de julho de 2009
EU SOU
Eu sou o que não sei que sou. Dizem que me chamo ------, mas eu não me chamo. Chamam-me! Ser o que não somos é sonho, doce ilusão. Ser o que não imaginamos que somos é existir despreocupadamente e ser o que somos é a enganação da realidade. Existir ou não existir? Existir apesar de... Ser é a verdade fantasiada de mentira. Uma mentira que paga impostos. Ser ou ser? Seremos! Seremos o amanhã transfigurado de outono. A palavra camuflada de silêncio. O amor revestido de conveniências. A guerra reinventada de utopia. Sermos? O apesar nos salva.
Lilian Flôres
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terça-feira, 21 de julho de 2009
FERRUGEM
O amor é como a ferrugem, corrói as entranhas, os ossos, os olhos... tudo em que há água salgada. Só os seios não se deixam inundar de sal, porque neles há fonte de leite doce. Doce e calmo como as águas do rio em que me banho.
Já o outro extremo é feito de mar salgado, cheira a maresia e é todo revolto. Quem olha para um extremo vê uma serenidade sacrossanta. E quem olha de outro extremo não vê, apenas senti! Senti água, pedras, lírios, escama, cacau e outras coisas que são secretas, porque se eu disser tudo, perde a graça e eu gosto de brincar de pique-esconde.
Já o outro extremo é feito de mar salgado, cheira a maresia e é todo revolto. Quem olha para um extremo vê uma serenidade sacrossanta. E quem olha de outro extremo não vê, apenas senti! Senti água, pedras, lírios, escama, cacau e outras coisas que são secretas, porque se eu disser tudo, perde a graça e eu gosto de brincar de pique-esconde.
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SAFRA RARA
Era verão. O avermelhado verão, quando sentiu entre suas coxas escorrer amor. Um amor rubro, todo feito para o adeus.
Não sabia por quem puxara porque o sangue de sua mãe era tão límpido, quase rosa. Se esvaia por entre quartos, banheiros e cozinha; como uma garrafa de vinho rose se derrama entre taças. Talvez tenha puxado por seu pai. Seu sangue era cristalino e percorria o quintal, ultrapassando o cercado da casa; como o vinho branco que se evapora sobre o pernil assado.
E a pergunta permanecia entre dentes. Era uma pergunta que não tinha resposta. Era uma pergunta que assassinava respostas. A resposta é faca de dois gumes. E por isso não respondia às perguntas, porque gostava mesmo era de ir dizendo.
No fundo temia a resposta. Ter medo era seu modo de viver. Só sabia dizer adeus como seu sangue. Adeus era romântico, religioso e também vermelho. Era como se estivesse desistindo a favor de Deus. Adeus era seu sinônimo de fé. Quanto mais dizia a Deus, mais sangue escorria entre suas pernas. Um sangue que morria na mesma terra em que fora semeado.
Era fevereiro e sol invadia seu quarto pelas frestas da janela e o calor impulsionava-a escrever poesias para exorcizar a vontade de dizer adeus. Como lhe faltava coragem, sussurrava a Deus às palavras não ditas na folha de papel. Como um cordão umbilical se despede do ventre materno e se entrega a mãos salvadoras.
Tentava escrever coisas banais. Queria ser leve. Falar das amoras silvestres, do gosto e do cheiro do café amargo, do silêncio do mar, do peixe que se escama, etc, etc, etc. Mas não conseguia... Tentava. Só Deus sabe como tentava, mas seus pensamentos suplicavam: sangue, vinho, galinha ao molho pardo!E por ser assim, ninguém a entendia, nem ela mesma se entendia às vezes, por isso perdoava, como a galinha perdoa Deus por nascer sem amor.
Queria dizer como vai? Mas como vai é verde e ela queria o vermelho. Mas o vermelho é vinho tinto de safra rara. Não se bebe, contempla-se. Vinho velho em odre novo e eu quero o gosto do carvalho.
Para amassar a uva é preciso amá-la. Para despejá-la dentro do odre é preciso amá-la. E dessa fermentação de amor, ter-se-á vinho nobre. É preciso amar o que se deseja beber e comer. Assim como a minhoca ama a terra e a galinha ama a minhoca e a dona da galinha ama seu pescoço decepado jorrando sangue de seu corpo gordo; para depois vê-la em pedaços, temperada com sal, ervas e sangue morno. No menu: Galinha ao Molho Pardo: sangue que se ama até a morte.
O vinho foi derramado sobre a toalha de linho branco e ela ficou calma, totalmente entregue ao sangue que pulsava dentro de si. Nunca se ama o sangue alheio. O sangue alheio é azul e o meu é vermelho-vinho.
A luz do abajur sobre a mesa deixava o vinho derramado mais vermelho. Queria bebê-lo misturado com o verniz da mesa de canela. Mas naquele momento lhe era proibido. Então tomou-se pela voracidade de dizer adeus. Depois, solitariamente com sua língua escarlate bebeu todas as gotas daquele raro vinho. Nem a toalha poupou, apesar de ter entranhado no bordado, fez o doce sacrifício de tentar torná-la alva novamente.
Amar o invisível é tarefa para os poetas. Eu amo o vinho que se deixa derramar sobre a toalha branca. Eu amo o vermelho da espada-de-são-jorge. Eu amo o sangue. O sangue é sagrado, como a tinta rubra da caneta que escrevo. É preciso pensar no sangue como se pensa em amoras silvestres.
Não sabia por quem puxara porque o sangue de sua mãe era tão límpido, quase rosa. Se esvaia por entre quartos, banheiros e cozinha; como uma garrafa de vinho rose se derrama entre taças. Talvez tenha puxado por seu pai. Seu sangue era cristalino e percorria o quintal, ultrapassando o cercado da casa; como o vinho branco que se evapora sobre o pernil assado.
E a pergunta permanecia entre dentes. Era uma pergunta que não tinha resposta. Era uma pergunta que assassinava respostas. A resposta é faca de dois gumes. E por isso não respondia às perguntas, porque gostava mesmo era de ir dizendo.
No fundo temia a resposta. Ter medo era seu modo de viver. Só sabia dizer adeus como seu sangue. Adeus era romântico, religioso e também vermelho. Era como se estivesse desistindo a favor de Deus. Adeus era seu sinônimo de fé. Quanto mais dizia a Deus, mais sangue escorria entre suas pernas. Um sangue que morria na mesma terra em que fora semeado.
Era fevereiro e sol invadia seu quarto pelas frestas da janela e o calor impulsionava-a escrever poesias para exorcizar a vontade de dizer adeus. Como lhe faltava coragem, sussurrava a Deus às palavras não ditas na folha de papel. Como um cordão umbilical se despede do ventre materno e se entrega a mãos salvadoras.
Tentava escrever coisas banais. Queria ser leve. Falar das amoras silvestres, do gosto e do cheiro do café amargo, do silêncio do mar, do peixe que se escama, etc, etc, etc. Mas não conseguia... Tentava. Só Deus sabe como tentava, mas seus pensamentos suplicavam: sangue, vinho, galinha ao molho pardo!E por ser assim, ninguém a entendia, nem ela mesma se entendia às vezes, por isso perdoava, como a galinha perdoa Deus por nascer sem amor.
Queria dizer como vai? Mas como vai é verde e ela queria o vermelho. Mas o vermelho é vinho tinto de safra rara. Não se bebe, contempla-se. Vinho velho em odre novo e eu quero o gosto do carvalho.
Para amassar a uva é preciso amá-la. Para despejá-la dentro do odre é preciso amá-la. E dessa fermentação de amor, ter-se-á vinho nobre. É preciso amar o que se deseja beber e comer. Assim como a minhoca ama a terra e a galinha ama a minhoca e a dona da galinha ama seu pescoço decepado jorrando sangue de seu corpo gordo; para depois vê-la em pedaços, temperada com sal, ervas e sangue morno. No menu: Galinha ao Molho Pardo: sangue que se ama até a morte.
O vinho foi derramado sobre a toalha de linho branco e ela ficou calma, totalmente entregue ao sangue que pulsava dentro de si. Nunca se ama o sangue alheio. O sangue alheio é azul e o meu é vermelho-vinho.
A luz do abajur sobre a mesa deixava o vinho derramado mais vermelho. Queria bebê-lo misturado com o verniz da mesa de canela. Mas naquele momento lhe era proibido. Então tomou-se pela voracidade de dizer adeus. Depois, solitariamente com sua língua escarlate bebeu todas as gotas daquele raro vinho. Nem a toalha poupou, apesar de ter entranhado no bordado, fez o doce sacrifício de tentar torná-la alva novamente.
Amar o invisível é tarefa para os poetas. Eu amo o vinho que se deixa derramar sobre a toalha branca. Eu amo o vermelho da espada-de-são-jorge. Eu amo o sangue. O sangue é sagrado, como a tinta rubra da caneta que escrevo. É preciso pensar no sangue como se pensa em amoras silvestres.
Lilian Flôres
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TERRA FÉRTIL
Aqui jaz uma terra fértil cheia de minhocas e caramujos a espera de novas sementes: e eis os frutos crus. Quem os colherá? O jardineiro? Talvez! Mas dizem que Ele só colhe o que está maduro. O fruto que está quase caindo do galho. E ela ainda está verde. Verde e crua!
Ela quer o inacabado... o que está para acontecer...o futuro... o amanhã...o depois e o depois do amanhã. A fruta caída do pé!
O que escrevo não é um grito e sim um sussurro... Um sussurro de ave de rapina. Faltam-me palavras e como sempre o silêncio me consome. Logo eu que grito: - ALELUIAS! O sol bate em minha janela e eu vivo!
E os frutos? Não sei. Agora estão caídos no chão esperando o jardineiro que fingirá não ver alguns deles, para que germine a semente nascida sem se plantar. Amém! O milagre da vida!
E o Bagaço? Esse como sempre fica na beira do caminho, onde os pés nus pisam; os espinhos sufocam e o pássaro come. Come como se fosse seu único alimento.
Mas onde estão as palavras? Como sempre não sei! Então, nos comunicamos com os dedos e como surdos e mudos contemplamos a orquestra de violoncelo.
Cadê o silêncio? Ele pulsa entre os raios de sol que nos separa, entre a terra arada; entre a videira, entre o cálice de vinho, entre o átrio; entre, entre, entre, entre, entre...
Ela quer o inacabado... o que está para acontecer...o futuro... o amanhã...o depois e o depois do amanhã. A fruta caída do pé!
O que escrevo não é um grito e sim um sussurro... Um sussurro de ave de rapina. Faltam-me palavras e como sempre o silêncio me consome. Logo eu que grito: - ALELUIAS! O sol bate em minha janela e eu vivo!
E os frutos? Não sei. Agora estão caídos no chão esperando o jardineiro que fingirá não ver alguns deles, para que germine a semente nascida sem se plantar. Amém! O milagre da vida!
E o Bagaço? Esse como sempre fica na beira do caminho, onde os pés nus pisam; os espinhos sufocam e o pássaro come. Come como se fosse seu único alimento.
Mas onde estão as palavras? Como sempre não sei! Então, nos comunicamos com os dedos e como surdos e mudos contemplamos a orquestra de violoncelo.
Cadê o silêncio? Ele pulsa entre os raios de sol que nos separa, entre a terra arada; entre a videira, entre o cálice de vinho, entre o átrio; entre, entre, entre, entre, entre...
Lilian Flôres
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segunda-feira, 20 de julho de 2009
TERRAS DESCONHECIDAS
Isso não é um conto, é um sonho. E sonhos são feitos de açúcar. Mas eu quero o fel, quero o que me é proibido. Mesmo que me seja negado. E assim posso sentir ao acordar o gosto de leite talhado, azedo, amargo entre minha saliva e meus dentes.
Sei que terei que despir-me de mim mesma e criar uma mulher. Uma mulher que precisará morrer no final dessa história. Por que estou contando o final? Também não sei. Talvez, porque minha natureza seja desobedecer. Talvez, porque sei que você não gosta de saber o final antes que seja o final. Porém, como isso não é um conto, revelei-te o recheio desse sonho com muito fel e mel.
Luana nasceu condenada a desobedecer. É seu instinto. Quanto mais desobedecia, mais queria desobedecer. Não sei explicar o que a movia fazer justamente o que não queria. E melhor, a fazer justamente o que as pessoas não esperariam dela.
Ela é meu oposto. Por isso estou inventando-a. Nela há um quê de verdade. Nela há um quê de pureza temperado levemente com um quê de sensualidade. Essa pureza provoca-lhe medo, ao mesmo tempo que a sensualidade provoca-lhe coragem. Medo de tocar no que lhe é proibido. Medo de ter o que não lhe pertence. Mas existe alguém que pertença a alguém? Enfim, o medo lhe protege de pisar em terras desconhecidas. Já a sensualidade que percorre suas veias com suavidade, impulsionando-lhe a uma coragem quase que inata. Uma vontade de continuar, de enfrentar as feras e domá-las com carne e vinho.
Essa coragem é que lhe fez participar desse sonho. Um sonho em que ela desconhece o personagem principal. Um sonho que é sonhado por outra pessoa: o desconhecido, o narrador ou a narradora?
Só pode ser a obediência. Eu não me importo de ser a coadjuvante dessa história. O importante é sonhar, mesmo que esse sonho não me pertença. Mesmo que esse sonho seja parcialmente meu.
Por isso eu resolvi participar dele também e tentar salvá-los. Para isso terei que mudar o curso desse sonho. Mexer no que está oculto. Tocar nas palavras não ditas. Alterar os destinos já que eles ainda não foram traçados. Pelo menos não lhe foram narrados. E como conheço o fim, antecipo-me dando ao anfitrião - o herói dessa história, sua carta de alforria, um final de paz. Um final em que fique livre da intrusa. Da mulher que atormenta seus sonhos.
Não será nada fácil, porque ambos rejeitarão esta história. Ela porque não deseja morrer. Como todas quer ser única, imortal, eterna, inclusive nos sonhos. E morrer é ceder espaço para o outro. E isso é autoflagelo.
E ele, porque não está preparado para perder o que deseja. Perder provoca-lhe dor e ele é o mocinho dessa história. E mocinhos são anestesiados. Mocinhos são vencedores. Eles permanecem até o fim, mesmo que pra isso precise virar lenda. Mocinhos sempre continuam...
Por isso quero que eles troquem de papel. Quero que eles se confundam e se fundam num só personagem. O melhor e o pior de cada um intrinsecamente num só ser. Será possível? Não sei. Você é um ou dois? Eu sou dois, três e às vezes quatro. Tudo depende do ângulo.
Não saber das coisas é minha salvação. Não saber é dar a oportunidade ao galã desse sonho pensar e mudar ambas as histórias.
Mas onde estão as histórias? Talvez esse sonho não tenha história. O que sei sobre o herói é que ele gosta de literatura. De ler o que é escrito milagrosamente.
Eu não. Eu venho aqui para mostrar que escrever é necessário. Que escrever é uma faca de dois gumes. Que escrever é traçar o seu próprio destino e transgredir a história já escrita. É mexer no que se pensa ser segredo.
É preciso começar, mas eu tenho certo medo que Luana comece a falar. Ela é desajeitada. Tem uma ingenuidade profana. Luana me assusta. E não assusta somente a mim. Ela assusta o herói dessa história também. Ele tem medo do que ela fala. Ela é impulsiva demais. Fala o que não deve e sempre na hora errada. Ela e ele não me conhecem, portanto não sabem ainda distinguir a pessoa da personagem. Por isso, prefiro me esconder, me omitir.
Esse personagem será um personagem monossilábico. Só ela falará de si. Ele apenas concordará porque não sabe negar o que se pede em silêncio e ao pé-do-ouvido.
Apesar de tão diferentes, são muito iguais e isso me assusta. Assusta tanto, que fico mudamente olhando-os. Ele a olha como se fosse uma fruta madura. E ela não o olha. Apenas senti! Senti que há fogo consumidor e por isso teme seu olhar.
Ao seu lado, ela se distrai fingindo ler livros já lidos. E para camuflar o medo, lê alguns trechos do livro em voz alta para que torne verossímil a leitura. Assim, pensando que ele está atrapalhando-a, conversa com um e com outro e com os botões da camisa. Mas, apesar de aparentar distraída, quando percebe que está perdendo-o de vista, propõe um diálogo em que não precise olhar em seus olhos, e de canto de olho, ela o observa. E assim conversam por longo tempo.
Quanto tempo isso dura? Tempo necessário para se descobrirem. Talvez eles terminem essa história sem se olharem nos olhos.
Apesar de gostar do inacabado, do que está para acontecer. Ela admite desejar aquele homem desconhecido que a convidou para frequentar seus sonhos. Mas para descobrir os seus mistérios, precisará penetrar seu olhar no dele. Por isso acho que não demorará muito para Luana render-se aos seus encantos.
Não foi isso que planejei. O plano era matar a protagonista, mas como fazer isso se agora não sou mais eu que a domina? Ela agora anda com suas próprias pernas. Como matar uma mulher quase muda e quase apaixonada? Reina o silêncio dos inocentes.
E ele? Ele tem um orgulho santo que provoca inveja nos que o rodeiam. Tem cheiro de açúcar mascavo com canela. Suas poucas palavras são cantadas em ré menor. A música entra pelos seus poros e sai pelos seus dedos. Já Luana é feita de fruto e folha. Seu cheiro é de maracujá e seu gosto é de hortelã recém ceifada. A poesia entranha em seus ouvidos e transpassa sua pele.
Ambos se deixam levar pelos sentidos e assim seus olhares invadem suas almas. Uma invasão quase permissiva. Querem se enxergar e como num caleidoscópio vêm suas imagens e desejos refletidos um no outro.
Aos poucos vão se entregando. Palavras, olhares, vinho, mãos, saliva ... calmamente encontram-se entre sussurros e gemidos.
Sei que terei que despir-me de mim mesma e criar uma mulher. Uma mulher que precisará morrer no final dessa história. Por que estou contando o final? Também não sei. Talvez, porque minha natureza seja desobedecer. Talvez, porque sei que você não gosta de saber o final antes que seja o final. Porém, como isso não é um conto, revelei-te o recheio desse sonho com muito fel e mel.
Luana nasceu condenada a desobedecer. É seu instinto. Quanto mais desobedecia, mais queria desobedecer. Não sei explicar o que a movia fazer justamente o que não queria. E melhor, a fazer justamente o que as pessoas não esperariam dela.
Ela é meu oposto. Por isso estou inventando-a. Nela há um quê de verdade. Nela há um quê de pureza temperado levemente com um quê de sensualidade. Essa pureza provoca-lhe medo, ao mesmo tempo que a sensualidade provoca-lhe coragem. Medo de tocar no que lhe é proibido. Medo de ter o que não lhe pertence. Mas existe alguém que pertença a alguém? Enfim, o medo lhe protege de pisar em terras desconhecidas. Já a sensualidade que percorre suas veias com suavidade, impulsionando-lhe a uma coragem quase que inata. Uma vontade de continuar, de enfrentar as feras e domá-las com carne e vinho.
Essa coragem é que lhe fez participar desse sonho. Um sonho em que ela desconhece o personagem principal. Um sonho que é sonhado por outra pessoa: o desconhecido, o narrador ou a narradora?
Só pode ser a obediência. Eu não me importo de ser a coadjuvante dessa história. O importante é sonhar, mesmo que esse sonho não me pertença. Mesmo que esse sonho seja parcialmente meu.
Por isso eu resolvi participar dele também e tentar salvá-los. Para isso terei que mudar o curso desse sonho. Mexer no que está oculto. Tocar nas palavras não ditas. Alterar os destinos já que eles ainda não foram traçados. Pelo menos não lhe foram narrados. E como conheço o fim, antecipo-me dando ao anfitrião - o herói dessa história, sua carta de alforria, um final de paz. Um final em que fique livre da intrusa. Da mulher que atormenta seus sonhos.
Não será nada fácil, porque ambos rejeitarão esta história. Ela porque não deseja morrer. Como todas quer ser única, imortal, eterna, inclusive nos sonhos. E morrer é ceder espaço para o outro. E isso é autoflagelo.
E ele, porque não está preparado para perder o que deseja. Perder provoca-lhe dor e ele é o mocinho dessa história. E mocinhos são anestesiados. Mocinhos são vencedores. Eles permanecem até o fim, mesmo que pra isso precise virar lenda. Mocinhos sempre continuam...
Por isso quero que eles troquem de papel. Quero que eles se confundam e se fundam num só personagem. O melhor e o pior de cada um intrinsecamente num só ser. Será possível? Não sei. Você é um ou dois? Eu sou dois, três e às vezes quatro. Tudo depende do ângulo.
Não saber das coisas é minha salvação. Não saber é dar a oportunidade ao galã desse sonho pensar e mudar ambas as histórias.
Mas onde estão as histórias? Talvez esse sonho não tenha história. O que sei sobre o herói é que ele gosta de literatura. De ler o que é escrito milagrosamente.
Eu não. Eu venho aqui para mostrar que escrever é necessário. Que escrever é uma faca de dois gumes. Que escrever é traçar o seu próprio destino e transgredir a história já escrita. É mexer no que se pensa ser segredo.
É preciso começar, mas eu tenho certo medo que Luana comece a falar. Ela é desajeitada. Tem uma ingenuidade profana. Luana me assusta. E não assusta somente a mim. Ela assusta o herói dessa história também. Ele tem medo do que ela fala. Ela é impulsiva demais. Fala o que não deve e sempre na hora errada. Ela e ele não me conhecem, portanto não sabem ainda distinguir a pessoa da personagem. Por isso, prefiro me esconder, me omitir.
Esse personagem será um personagem monossilábico. Só ela falará de si. Ele apenas concordará porque não sabe negar o que se pede em silêncio e ao pé-do-ouvido.
Apesar de tão diferentes, são muito iguais e isso me assusta. Assusta tanto, que fico mudamente olhando-os. Ele a olha como se fosse uma fruta madura. E ela não o olha. Apenas senti! Senti que há fogo consumidor e por isso teme seu olhar.
Ao seu lado, ela se distrai fingindo ler livros já lidos. E para camuflar o medo, lê alguns trechos do livro em voz alta para que torne verossímil a leitura. Assim, pensando que ele está atrapalhando-a, conversa com um e com outro e com os botões da camisa. Mas, apesar de aparentar distraída, quando percebe que está perdendo-o de vista, propõe um diálogo em que não precise olhar em seus olhos, e de canto de olho, ela o observa. E assim conversam por longo tempo.
Quanto tempo isso dura? Tempo necessário para se descobrirem. Talvez eles terminem essa história sem se olharem nos olhos.
Apesar de gostar do inacabado, do que está para acontecer. Ela admite desejar aquele homem desconhecido que a convidou para frequentar seus sonhos. Mas para descobrir os seus mistérios, precisará penetrar seu olhar no dele. Por isso acho que não demorará muito para Luana render-se aos seus encantos.
Não foi isso que planejei. O plano era matar a protagonista, mas como fazer isso se agora não sou mais eu que a domina? Ela agora anda com suas próprias pernas. Como matar uma mulher quase muda e quase apaixonada? Reina o silêncio dos inocentes.
E ele? Ele tem um orgulho santo que provoca inveja nos que o rodeiam. Tem cheiro de açúcar mascavo com canela. Suas poucas palavras são cantadas em ré menor. A música entra pelos seus poros e sai pelos seus dedos. Já Luana é feita de fruto e folha. Seu cheiro é de maracujá e seu gosto é de hortelã recém ceifada. A poesia entranha em seus ouvidos e transpassa sua pele.
Ambos se deixam levar pelos sentidos e assim seus olhares invadem suas almas. Uma invasão quase permissiva. Querem se enxergar e como num caleidoscópio vêm suas imagens e desejos refletidos um no outro.
Aos poucos vão se entregando. Palavras, olhares, vinho, mãos, saliva ... calmamente encontram-se entre sussurros e gemidos.
Lilian Flôres
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TERRA LAVRADA
Maria era mulher de todos os dias. Era feita de braços, pernas e peitos. Os braços acolhiam todos que precisassem de um ombro amigo, uma ajuda ou até mesmo um cortês cumprimento. Não era mulher tímida, pelo contrário, sempre estava à frente de tudo e de todos. Às vezes até sem permissão. As pernas e os peitos eram seu segredo maior. Não os mostrava para ninguém. Sempre de saias compridas ou longos vestidos que escondiam desde seu tornozelo carnudo até seu pescoço.
Um dia foi ao médico e descobriu que estava quase surda. Sofria de surdez passageira. Logo ela que apesar das vestimentas discretas era feita em pura alegria. Teria agora que aprender a conviver com o silêncio de seus risos. Além dos seus, não ouvia os alheios também.
Estava aprendendo amar o silêncio. Não era tarefa difícil, mas também não era fácil. Digamos que poderia ser possível. Como é possível se aprender a escrever.
Eu queria escrever o silêncio, mas ele me é proibido. Tem gente que acha que o sussurro é silêncio. Eu acho que o grito é o silêncio. Eu sou escandalosamente silenciosa - toda feita em gritos! Agora mesmo é que eu queria gritar: SILÊNCIO! Mas se eu gritar será sussurro, porque o grito está abafado dentro de mim. E quanto mais grito: SILÊNCIO! Mais sussurro emana de meus lábios.
Maria não, Maria é puro grito. Um grito que ecoa em terras lavradas de estrume e milho.
Tenho dois palpites sobre o silêncio: um ele é vermelho-puro-sangue e outro verde-água-esmeralda, ambos pulsam dentro de mim. Mas qual dos dois será que ela escolheria? Não sei. Só sei que se soubesse mentiria. Porque a verdade dói demais e ela gosta da mentira nua e crua.
Maria com certeza é vermelho-puro-sangue. Ela é concreta. Ela é o meu disfarce. Ela existe para que eu possa dormir tranquila, sem incomodar a vizinhança.
Queria mesmo era pegar o silêncio, mas ele novamente escapou. Há silêncio sacrossanto dentro de mim. Há silêncio morno, pronto para ser vomitado.
Um dia foi ao médico e descobriu que estava quase surda. Sofria de surdez passageira. Logo ela que apesar das vestimentas discretas era feita em pura alegria. Teria agora que aprender a conviver com o silêncio de seus risos. Além dos seus, não ouvia os alheios também.
Estava aprendendo amar o silêncio. Não era tarefa difícil, mas também não era fácil. Digamos que poderia ser possível. Como é possível se aprender a escrever.
Eu queria escrever o silêncio, mas ele me é proibido. Tem gente que acha que o sussurro é silêncio. Eu acho que o grito é o silêncio. Eu sou escandalosamente silenciosa - toda feita em gritos! Agora mesmo é que eu queria gritar: SILÊNCIO! Mas se eu gritar será sussurro, porque o grito está abafado dentro de mim. E quanto mais grito: SILÊNCIO! Mais sussurro emana de meus lábios.
Maria não, Maria é puro grito. Um grito que ecoa em terras lavradas de estrume e milho.
Tenho dois palpites sobre o silêncio: um ele é vermelho-puro-sangue e outro verde-água-esmeralda, ambos pulsam dentro de mim. Mas qual dos dois será que ela escolheria? Não sei. Só sei que se soubesse mentiria. Porque a verdade dói demais e ela gosta da mentira nua e crua.
Maria com certeza é vermelho-puro-sangue. Ela é concreta. Ela é o meu disfarce. Ela existe para que eu possa dormir tranquila, sem incomodar a vizinhança.
Queria mesmo era pegar o silêncio, mas ele novamente escapou. Há silêncio sacrossanto dentro de mim. Há silêncio morno, pronto para ser vomitado.
Lilian Flôres
TERRA ÁRIDA
Ela estava deitada sobre a areia negra e ouvindo vozes trazidas pelo vento. Talvez só ouvisse as vozes que ecoava dentro de si mesma. Talvez? Talvez era sua forma de se disfarçar.
Uma voz cochichou que “o amor está para bater em sua porta”. Mas ela não tinha porta e sim janelas. E agora? Acho que não será desta vez. Sentiu que teria que esperar mais um pouco. Essa voz não era pra ela!
Outra voz sussurrava dizendo que “estava muito quente”. Queria saber o porquê, já que sentia um frio danado que a consumia, fazendo-a tremer e temer o vento nordeste. A outra suplicava: “eu também quero”. Querer é poder? Querer sempre lhe provocava medo. Querer para ela era um talvez.
A outra berrava em alto e bom som: “cerveja, refrigerante e água mineral!!!!”. Substantivo e adjetivo soltos ao vento para quem quisesse pegá-los. Quem pagasse, saciava sua sede liquefeitas em palavras.
E a outra disse: “muitos já encontraram o amor de suas vidas ali...”. Ali, onde? Queria ter visto o dedo ou os olhos desta voz. Perdeu! Ficou com a palavra, com o mar e areia preta que dizem curar dores.
As dores na alma também? Ela ingenuamente acreditava que sim, por isso permanecia estirada naquela terra árida misturada de sol e sal, até o fim do verão.
Uma voz cochichou que “o amor está para bater em sua porta”. Mas ela não tinha porta e sim janelas. E agora? Acho que não será desta vez. Sentiu que teria que esperar mais um pouco. Essa voz não era pra ela!
Outra voz sussurrava dizendo que “estava muito quente”. Queria saber o porquê, já que sentia um frio danado que a consumia, fazendo-a tremer e temer o vento nordeste. A outra suplicava: “eu também quero”. Querer é poder? Querer sempre lhe provocava medo. Querer para ela era um talvez.
A outra berrava em alto e bom som: “cerveja, refrigerante e água mineral!!!!”. Substantivo e adjetivo soltos ao vento para quem quisesse pegá-los. Quem pagasse, saciava sua sede liquefeitas em palavras.
E a outra disse: “muitos já encontraram o amor de suas vidas ali...”. Ali, onde? Queria ter visto o dedo ou os olhos desta voz. Perdeu! Ficou com a palavra, com o mar e areia preta que dizem curar dores.
As dores na alma também? Ela ingenuamente acreditava que sim, por isso permanecia estirada naquela terra árida misturada de sol e sal, até o fim do verão.
Lilian Flores (Em Balneário de Barra do Sul, Praia do Bispo)
SEMENTE
Ordeno-te que germines!
Lancei-te sobre o pó da terra e saciei-te a sede e tu, porém, preferes clamar por enxurrada ou sol de 40 graus; para que em vão continues a sonhar solitária sobre a cova rasa onde descansas. Ora, o sol te queimará viva, junto com teus sonhos encobertos de segredos e a chuva torrencial molestará teu corpo frágil carregando-te às terras pedregosas. Decide-te! Para onde queres ir?
- Quero apenas alimentar minha fome de terra. Não! Não me dê água. Estou farta! Há chuva demais sobre meu corpo aleijado, e eu bem sei que fomos feitos para beber. Mas agora. Agora eu quero comer. Comer! Comer apenas. Guarde teu regador ou lances esta água dormida sobre as sementes vizinhas, mas não sobre mim. Quero raízes profundas e a tua água me apodrecerá, porque na terra em que me deito a fonte está transbordante. Quero terra nova, cheia de húmus aquecendo meus sonhos profanos, onde me transformo em puro espinho. Porque há tempos que o jardineiro não passeia pelo meu jardim que fenece a cada dia por sempre, inutilmente, esperar.
Lilian Flôres
Lancei-te sobre o pó da terra e saciei-te a sede e tu, porém, preferes clamar por enxurrada ou sol de 40 graus; para que em vão continues a sonhar solitária sobre a cova rasa onde descansas. Ora, o sol te queimará viva, junto com teus sonhos encobertos de segredos e a chuva torrencial molestará teu corpo frágil carregando-te às terras pedregosas. Decide-te! Para onde queres ir?
- Quero apenas alimentar minha fome de terra. Não! Não me dê água. Estou farta! Há chuva demais sobre meu corpo aleijado, e eu bem sei que fomos feitos para beber. Mas agora. Agora eu quero comer. Comer! Comer apenas. Guarde teu regador ou lances esta água dormida sobre as sementes vizinhas, mas não sobre mim. Quero raízes profundas e a tua água me apodrecerá, porque na terra em que me deito a fonte está transbordante. Quero terra nova, cheia de húmus aquecendo meus sonhos profanos, onde me transformo em puro espinho. Porque há tempos que o jardineiro não passeia pelo meu jardim que fenece a cada dia por sempre, inutilmente, esperar.
Lilian Flôres
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